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#7 A chula cristã de Boião

Nelson Mendes, conhecido por Boião, é mestre gritador de chula que vive em São Francisco do Conde. Como a maioria dos sambadores do Recôncavo, aprendeu a arte quando criança, observando os mais velhos. Trabalhou como pescador e embarcadiço no tempo do trânsito intenso de saveiros na Bahia de Todos os Santos, e por conta desse ofício conheceu várias cidades à beira-mar. Um samba em cada porto.

Entrou para a Assembléia de Deus para deixar de fumar e de beber. Deixou de sambar, por muitos anos. Vivia nos fundos da casa de seu cunhado, Zé de Lelinha, violeiro lendário que dominava como poucos a arte da viola machete. Não sambava, mas via o samba acontecer com o registro de patrimônio nacional e depois com o reconhecimento de obra prima da humanidade. Zé de Lelinha deu aulas de viola a Milton Primo, e Milton encontrou Boião no terreiro da casa do mestre.

Boião voltou a fazer chula quando saiu da Igreja. Procurou músicas na memória e encontrou mais de 300 chulas antigas. Algumas delas já não eram tocadas a muito tempo. A mente de Boião guarda um acervo raro de peças que constituem a base de uma memória social importante para o Recôncavo da Bahia. É o modo de viver dos embarcadiços que abasteciam a Cidade da Bahia dos bens que seus habitantes necessitavam. Essa atividade envolveu muitos grupos sociais em uma realidade viva e complexa, e o que Boião guarda é a produção poética (ou algo mais que isso) desses grupos.

Boião deixou a Igreja, mas não perdeu a fé. No início deste ano tive oportunidade de conhecê-lo e registrar algo de sua produção atual. Suas chulas agora falam de Deus e de Jesus. É interessante porque Boião mantém a chula em compasso com os momentos de sua vida. A linguagem pode ser utilizada para a criação de discursos diversos, o importante é matê-la viva e arejada.  Boião é um mestre que sabe o que faz, e faz o que quer.

Veja o vídeo abaixo:

Milton Primo, que no vídeo acima acompanha Boião na viola, fez um filme com algumas das chulas antigas gritadas por Boião. O título é “Ouça Meu Palavreado” e está dividido em três partes no canal do músico no You Tube, clique aqui para ser direcionado.

EM TEMPO…

A pareia de Boião é Zé de Paulo (voz e pandeiro), e a viola machete que os acompanha é tocada por Milton Primo. Eles vão se apresentar no Sesc Madureira, no Rio de Janeiro, dias 18 e 25 de setembro. Quem estiver na cidade maravilhosa, vale a pena!

Ps. Aos que acompanham este blog, peço desculpas por não atualizá-lo na frequência prometida. Motivos de força maior me impedem de fazê-lo, mas acho que no fim de setembro as coisas vão se normalizar.

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#6 25 de Junho em Cachoeira (parte III)

Objetos portadores de significado têm força, são complexos e vivos, e podem ser utilizados em discursos diversos, até mesmo opostos. Talvez por ser território historicamente cosmopolita, cenário onde se encontraram e ainda se encontram elementos de culturas diversas, o Recôncavo da Bahia tenha se tornado lugar privilegiado para construção de símbolos. E para manipulação de seus significados.

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O símbolo mais forte da Bahia é o Caboclo. Ele reúne religiosidade e civismo, além de se relacionar a uma concepção ideal de liberdade: a liberdade do passado (memória idílica, construída desde a carta de Caminha e reforçada no século XIX); e a liberdade futura, eternamente desejada, nunca alcançada. Além disso, quanto à forma, o caboclo é dois: tanto pode ser o mestiço das matas, guerreiro, caçador e conhecedor das ervas; como pode ser o vaqueiro do sertão. Essa ambiguidade garante a unidade entre floresta e caatinga.

Em vários municípios (Salvador, Saubara, Santo Amaro, São Félix…) imagens de Caboclos e Caboclas são levadas em cortejo no dia 2 de Julho, celebrando a Independêcia. O evento rememora a entrada vitoriosa do Exército Pacificador na Cidade da Bahia, marcando o fim da guerra. Segundo Manuel Querino, citado por Raul Lody no Dicionário de Arte Sacra e Técnicas Afro-Brasileiras, o costume teve início em Salvador logo no ano seguinte à independência, quando

“lançaram mão de uma carreta tomada dos lusitanos, nos combates de Pirajá, enfeitaram-na com ramo de café, fumo, cana e folhas brasileiras e sobre a carreta colocaram um velho mestiço descendente de indígenas. E assim conduziram do largo da Lapinha ao Terreiro de Jesus.”

Em 1826 o velho mestiço foi substituído pelas imagens do Caboclo e da Cabocla esculpidas em madeira. Elas foram associadas à liberdade do Brasil. As imagens e o cortejo vieram a consolidar um dos significados possíveis do signo caboclo, e  colaborou para que ele se transformasse em símbolo com o qual o povo baiano se identificasse.

Entrada do Exército Pacificador na Cidade da Bahia - litografia de Bento Capinam, 1830. Será que é um caboclo no canto inferior direito?

Os caboclos representam a independência do Brasil. Originariamente suas imagens estão comprometidas com um trabalho muito cuidadoso cujo objetivo era construir uma memória oficial para a Bahia e para o Brasil. Quanto maior fosse a celebração popular, quanto mais pessoas no cortejo, quanto mais forte a mobilização em torno do símbolo, maior o espaço dos grupos baianos no jogo de poder da nação recém independente.

Além disso, quanto maior fosse a identificação com o símbolo dos caboclos, maior o sentimento de pertencimento das pessoas em relação à província e ao país. A diversidade étnica brasileira sempre dificultou uma definição de “ser brasileiro”, sobretudo nos moldes em voga no século XIX. Qual seria o caráter desse povo afinal? É possível chamar essa massa heterogênea de povo?

Ao menos na esfera local o símbolo dos caboclos foi bem sucedido nesse ponto. Ele conseguiu reunir todos (ou quase todos) os grupos sociais, permitindo a identificação de cada um deles através de olhares diferentes. E no final das interpretações, sobra o que há de comum a todos: o mito guerreiro, o batismo de fogo da nação independente, a posição heróica do povo baiano nesse processo, a vitória, a unidade, etc.

Detalhe do Monumento ao 2 de Julho, feito por Carlo Nicoli - Salvador/BA

A imagem do caboclo é alimentada por uma infinidade de referências. O dragão a seus pés representa o inimigo lusitano, mas também o insere no bem conhecido universo da iconografia cristã relacionando-o tanto ao Arcanjo Miguel como a S. Jorge. Por outro lado, a representação do continente americano sempre foi feita através da imagem idealizada do indígena. É, aliás, interessante o modo como o olhar do europeu ganha outro  significado no processo de construção da identidade local.

Em relação aos grupos africanos a imagem do caboclo também se desenvolve em terreno fértil. Figura central na tradição de Angola, o indigena sempre foi respeitado pelas nações africanas. Além disso, a figura do homem das matas, guerreiro, caçador, médico, já existia entre as etnias africanas que colonizaram o Brasil.

Mas há um incômodo em tudo isso. O processo de independência (1822/23) não foi abolicionista. Encontra-se cronologicamente entre duas outras revoluções importantes: a Conjuração Baiana (1798) e a Revolta dos Malês (1835), ambas de caráter popular e abolicionista. Ainda assim a memória da independência se relaciona à liberdade…

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O costume do cortejo penetrou nos municípios do Recôncavo, sendo que somente em Cachoeira ele se relaciona a uma memória diferente. Lá ele comemora a entrada da tropa arregimentada no Iguape pelos coronéis José Garcia Pacheco e Rodrigo Antônio Falcão. Mas no fundo diz menos respeito aos atores do que ao palco dos eventos, comemorando sobretudo a participação do município, como se fosse um ente animado por vida própria. É a cidade que é heróica, seus moradores só o são por extensão.

Em Cachoeira e São Félix o ritual ainda ganha outras dimensões. No século XIX boa parte do terreno à margem direito do Rio Paraguaçu pertencia a Cachoeira, incluindo aí municípios como Castro Alves, Sapeaçu, Conceição do Almeida, etc. São Félix foi a primeira cidade a se emancipar, logo no início da República, e o casal de caboclos se separou.

A Cabocla vive em São Félix, sob a guarda de Beatriz da Conceição (Bibi) na Casa de Cultura Américo Simas; e o Caboclo ainda mora em Cachoeira. No dia 24 de junho a Cabocla, devidamente enfeitada, atravessa a ponte Pedro II para encontrar o Caboclo, e ambos são conduzidos em cortejo de pessoas notáveis das duas cidades até uma palhoça na Rua da Feira. No dia seguinte mais cortejo, até a Casa de Câmara e Cadeia, onde tudo aconteceu em 1822 (ver post anterior).

O interessante disso tudo é a celebração da união entre as duas cidades, tão distintas do ponto de vista político, mas que não podem abrir mão da tradição profundamente enraizada. Depois, no dia 27 de junho o casal volta a São Félix, onde continuam o namoro até o dia 2 de Julho, data do cortejo Sanfelixta, este sim celebrando o fim da guerra, em 2 de Julho de 1823.

Muitos foguetes e muito barulho em todo esse movimento. A beleza maior dessa tradição talvez nem seja a celebração histórica, que precisa ser revisitada e constantemente discutida. A maior beleza é identificar na constituição dos grupos de notáveis de Cachoeira e de São Félix, pessoas que não se agregam aos grupos oficiais de poder de nenhuma das duas cidades, mas que constituem forças enormes nas pequenas comunidades de que fazem parte. Essas pessoas que estão lá pelo profundo respeito que têm à entidade do Caboclo, percebem nele a representação de algo que extrapola a manutenção do status quo e o identificam com a possibilidade de transformação social.

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#2 Antônio Cardoso, artista de Muritiba

Enguia

Conheci Antônio Cardoso na Conferência Municipal de Cultura de Muritiba, no ano passado. Ele estava deslocado em seu eixo temático. Primeiro porque não conseguia entrar na discussão, depois porque suas necessidades como artista já estavam suficientemente claras, e não encontravam eco no que se falava. Aconselhei que se reunisse a um artesão (também deslocado pelas mesmas razões) e que juntos criassem um documento em separado. Esse documento demandava do poder público apoio para produzir e lugar para expor.

Mulher

É claro que Antônio gostaria de viver de sua arte, e bem poderia. Mas cadê espaço? Criar, para ele, é necessidade urgente. Faz desenhos porque é o material que tem condições de comprar, mas seu sonho é a pintura e a tela. Enquanto isso, trabalha com hidrocor e lápis. Da última vez que o encontrei ele experimentava as cores de um barro vermelho encontrado próximo a sua residência (esses trabalhos com barro são formidáveis – Antônio também cria peças em barro não cozido).

Estudos para desenho de homem

Homem

Nessa urgência toda Antônio acabou definindo linguagem própria. Estudou alguma coisa de perspectiva pelo Instituto Universal Brasileiro, onde se formou como Mestre de Obras depois de ser excluído do ensino público (veja no vídeo). Seus pontos de fuga miram a frigideira e o gato. Na base equerda o edifício se projeta para o fundo, no topo direito quase despenca no primeiro plano. O espaço de Antônio cria um universo paralelo que subverte e supera a ordem do real, e acentua o caráter expressivo de sua linguagem.

Arquitetura

Não gosto e nem acredito no uso do termo naïf , que distingue a categoria de artistas sem estudo formal da categoria dos artistas artistas. A impressão que se tem é que as poéticas ingênuas partem de uma expressividade absoluta, que passa ao largo da consciência da linguagem. Creio que isso é falso, porque qualquer um que enfrente problemas de execução material, em alguma medida pensa questões de linguagem. Não é possível classificar o trabalho de Antônio antes de frequentá-lo, é o que eu quero dizer. E se propusermos uma aproximação honesta, livre de preconceitos, com sua obra, podemos ser levados a reconhecer nele um artista talentoso.

Pássaro

Vegetal

Quando muito pouco, deve-se reconhecer em seus trabalhos ao menos o valor da originalidade. Antônio desenha flores, animais e figuras humanas que são únicas, porque sua imaginação é singular. Os vegetais parecem ser a desculpa para a combinação de cores. Do caule verde brotam botões vermelhos e deles surge o ritmo. Sua enguia é bem estruturada, nobre com o peito estufado e olhar congelado no tempo. Não há caráter narrativo em suas peças, e as figuras parecem simplesmente existir em sua imaginação. A mulher que sofre, é uma mulher que sofre, e Antônio cria a imagem do sofrimento sem que seja necessário ligá-lo a um motivo. A enguia é nobre e a flor é elegante. O apelo não está na história, mas no exercício difícil que é dar  forma à qualidade e ao sentimento.

O mérito de Antônio como artista está em seu poder de expressão. Mesmo quando enfrenta temas narrativos, como a destruição do mundo, o que ressalta é a qualidade da desordem. E o espaço parece estar para ele sempre apartado do tempo. Confesso que tenho dificuldades de perceber o tempo em seus desenhos, mesmo quando o movimento, que deveria pressupô-lo, é evidente…

Depois da conferência de cultura, Antônio continua sem espaço para expor e sem apoio para produzir. Sua arte não é suficientemente reconhecida em sua cidade, o que é lastimável. Um trabalho que poderia ser motivo de orgulho, não consegue sequer a possibilidade de ser mostrado. A tristeza maior disso tudo é que um mínimo de reconhecimento poderia fazer a obra de Antônio crescer muito…  ele sabe o que faz, mas ninguém acredita nele. Paciência.

Homem de olhos amarelos e verdes

Destruição do Mundo

Mulher II

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