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#6 25 de Junho em Cachoeira (parte III)

Objetos portadores de significado têm força, são complexos e vivos, e podem ser utilizados em discursos diversos, até mesmo opostos. Talvez por ser território historicamente cosmopolita, cenário onde se encontraram e ainda se encontram elementos de culturas diversas, o Recôncavo da Bahia tenha se tornado lugar privilegiado para construção de símbolos. E para manipulação de seus significados.

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O símbolo mais forte da Bahia é o Caboclo. Ele reúne religiosidade e civismo, além de se relacionar a uma concepção ideal de liberdade: a liberdade do passado (memória idílica, construída desde a carta de Caminha e reforçada no século XIX); e a liberdade futura, eternamente desejada, nunca alcançada. Além disso, quanto à forma, o caboclo é dois: tanto pode ser o mestiço das matas, guerreiro, caçador e conhecedor das ervas; como pode ser o vaqueiro do sertão. Essa ambiguidade garante a unidade entre floresta e caatinga.

Em vários municípios (Salvador, Saubara, Santo Amaro, São Félix…) imagens de Caboclos e Caboclas são levadas em cortejo no dia 2 de Julho, celebrando a Independêcia. O evento rememora a entrada vitoriosa do Exército Pacificador na Cidade da Bahia, marcando o fim da guerra. Segundo Manuel Querino, citado por Raul Lody no Dicionário de Arte Sacra e Técnicas Afro-Brasileiras, o costume teve início em Salvador logo no ano seguinte à independência, quando

“lançaram mão de uma carreta tomada dos lusitanos, nos combates de Pirajá, enfeitaram-na com ramo de café, fumo, cana e folhas brasileiras e sobre a carreta colocaram um velho mestiço descendente de indígenas. E assim conduziram do largo da Lapinha ao Terreiro de Jesus.”

Em 1826 o velho mestiço foi substituído pelas imagens do Caboclo e da Cabocla esculpidas em madeira. Elas foram associadas à liberdade do Brasil. As imagens e o cortejo vieram a consolidar um dos significados possíveis do signo caboclo, e  colaborou para que ele se transformasse em símbolo com o qual o povo baiano se identificasse.

Entrada do Exército Pacificador na Cidade da Bahia - litografia de Bento Capinam, 1830. Será que é um caboclo no canto inferior direito?

Os caboclos representam a independência do Brasil. Originariamente suas imagens estão comprometidas com um trabalho muito cuidadoso cujo objetivo era construir uma memória oficial para a Bahia e para o Brasil. Quanto maior fosse a celebração popular, quanto mais pessoas no cortejo, quanto mais forte a mobilização em torno do símbolo, maior o espaço dos grupos baianos no jogo de poder da nação recém independente.

Além disso, quanto maior fosse a identificação com o símbolo dos caboclos, maior o sentimento de pertencimento das pessoas em relação à província e ao país. A diversidade étnica brasileira sempre dificultou uma definição de “ser brasileiro”, sobretudo nos moldes em voga no século XIX. Qual seria o caráter desse povo afinal? É possível chamar essa massa heterogênea de povo?

Ao menos na esfera local o símbolo dos caboclos foi bem sucedido nesse ponto. Ele conseguiu reunir todos (ou quase todos) os grupos sociais, permitindo a identificação de cada um deles através de olhares diferentes. E no final das interpretações, sobra o que há de comum a todos: o mito guerreiro, o batismo de fogo da nação independente, a posição heróica do povo baiano nesse processo, a vitória, a unidade, etc.

Detalhe do Monumento ao 2 de Julho, feito por Carlo Nicoli - Salvador/BA

A imagem do caboclo é alimentada por uma infinidade de referências. O dragão a seus pés representa o inimigo lusitano, mas também o insere no bem conhecido universo da iconografia cristã relacionando-o tanto ao Arcanjo Miguel como a S. Jorge. Por outro lado, a representação do continente americano sempre foi feita através da imagem idealizada do indígena. É, aliás, interessante o modo como o olhar do europeu ganha outro  significado no processo de construção da identidade local.

Em relação aos grupos africanos a imagem do caboclo também se desenvolve em terreno fértil. Figura central na tradição de Angola, o indigena sempre foi respeitado pelas nações africanas. Além disso, a figura do homem das matas, guerreiro, caçador, médico, já existia entre as etnias africanas que colonizaram o Brasil.

Mas há um incômodo em tudo isso. O processo de independência (1822/23) não foi abolicionista. Encontra-se cronologicamente entre duas outras revoluções importantes: a Conjuração Baiana (1798) e a Revolta dos Malês (1835), ambas de caráter popular e abolicionista. Ainda assim a memória da independência se relaciona à liberdade…

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O costume do cortejo penetrou nos municípios do Recôncavo, sendo que somente em Cachoeira ele se relaciona a uma memória diferente. Lá ele comemora a entrada da tropa arregimentada no Iguape pelos coronéis José Garcia Pacheco e Rodrigo Antônio Falcão. Mas no fundo diz menos respeito aos atores do que ao palco dos eventos, comemorando sobretudo a participação do município, como se fosse um ente animado por vida própria. É a cidade que é heróica, seus moradores só o são por extensão.

Em Cachoeira e São Félix o ritual ainda ganha outras dimensões. No século XIX boa parte do terreno à margem direito do Rio Paraguaçu pertencia a Cachoeira, incluindo aí municípios como Castro Alves, Sapeaçu, Conceição do Almeida, etc. São Félix foi a primeira cidade a se emancipar, logo no início da República, e o casal de caboclos se separou.

A Cabocla vive em São Félix, sob a guarda de Beatriz da Conceição (Bibi) na Casa de Cultura Américo Simas; e o Caboclo ainda mora em Cachoeira. No dia 24 de junho a Cabocla, devidamente enfeitada, atravessa a ponte Pedro II para encontrar o Caboclo, e ambos são conduzidos em cortejo de pessoas notáveis das duas cidades até uma palhoça na Rua da Feira. No dia seguinte mais cortejo, até a Casa de Câmara e Cadeia, onde tudo aconteceu em 1822 (ver post anterior).

O interessante disso tudo é a celebração da união entre as duas cidades, tão distintas do ponto de vista político, mas que não podem abrir mão da tradição profundamente enraizada. Depois, no dia 27 de junho o casal volta a São Félix, onde continuam o namoro até o dia 2 de Julho, data do cortejo Sanfelixta, este sim celebrando o fim da guerra, em 2 de Julho de 1823.

Muitos foguetes e muito barulho em todo esse movimento. A beleza maior dessa tradição talvez nem seja a celebração histórica, que precisa ser revisitada e constantemente discutida. A maior beleza é identificar na constituição dos grupos de notáveis de Cachoeira e de São Félix, pessoas que não se agregam aos grupos oficiais de poder de nenhuma das duas cidades, mas que constituem forças enormes nas pequenas comunidades de que fazem parte. Essas pessoas que estão lá pelo profundo respeito que têm à entidade do Caboclo, percebem nele a representação de algo que extrapola a manutenção do status quo e o identificam com a possibilidade de transformação social.

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#5 25 de Junho em Cachoeira (parte II)

Em 1826 Pedro I aprovou a criação de um monumento que homenageasse os feitos heróicos do 25 de Junho, desde que fosse erigido às custas da própria vila de Cachoeira. Não saberia dizer se a partir da autorização imperial houve algum movimento no sentido de concretizar a obra, mas a informação indica algo interessante:

1º Controle do Império sobre os símbolos nacionais, uma vez que sua construção dependia da aprovação do Regente;

2º Pressa dos Cachoeiranos em definir e cristalizar o discurso oficial da memória do 25 de Junho tão logo se iniciasse o período de estabilidade pós-independência;

3º Conformidade de projetos políticos, ou antes, inserção das perspectivas da elite açucareira na base de sustentação da monarquia.

Se fosse concedido a cada província o direito de construir a própria memória o resultado provável seria a concorrência entre signos de identidade local e signos nacionais (também em construção), um risco para a unidade territorial brasileira. Os símbolos eram regulados com parcimônia, e o fato de Cachoeira ter conseguido autorização para fortalecer a imagem de seu heroísmo através da criação de um monumento não é coisa vulgar. Por um lado indica a força da pressão dos grupos de poder político e econômico da vila (e do Recôncavo, por que não?) junto ao Império; e por outro revela a intenção desses grupos de legitimar o próprio poder vinculando a si mesmos um papel proeminente no processo de independência que definiria qualquer cenário político a partir de então, fosse ele qual fosse.

Por algum motivo esse monumento não foi erigido, não vou especular agora (se alguém puder contribuir com alguma referência sobre isso ela será bem acolhida nos comentários). Isso não quer dizer que a memória oficial não tenha sido construída, ela o foi, mas por outros meios: narrativa histórica, procissão com os caboclos, discursos inflamados no 25 de Junho, etc. Faltava porém uma imagem que desse forma e concretude ao acontecimento.

Em 1923, quase um século depois, a Câmara dos Deputados do Estado da Bahia já havia aprovado o gasto de 50 contos de réis com um monumento que celebrasse o 25 de Junho em Cachoeira. Alberto Rabello, autor do projeto, aproveitou a comemoração do centenário da independência para cobrar o resgate dessa dívida de honra, que vae já tomando lastimaveis proporções de ingratidão e injustiça.” (Diário Official do Centenario, p.172) Nessa mesma ocasião faz referência a um contrato firmado na Secretaria do Interior com “distincto esculptor italiano” para a execução da obra.

Não dispomos de mais nenhuma informação sobre esta encomenda ou sobre o artista italiano que a executaria. Carlos Nicoli, talvez? O mesmo criador do Caboclo da Praça 2 de Julho? Seria o caso de buscar essa informação nos diários oficiais anteriores a maio de 1923 ou em periódicos. Se alguém se interessar pela pesquisa, por favor mande notícias!

O fato é que o monumento mais uma vez não foi construído. Em 1928 Antônio Parreiras, laureado pintor fluminense, foi contratado pelo governo do estado para pintar uma tela histórica de tema o primeiro passo para independência na Bahia. O valor:  cincoenta contos de réis (50:000$000). Tive acesso ao texto do contrato no Museu Antônio Parreiras, em Niterói, em 2007.

Ele foi firmado no dia 24 de outubro de 1928 entre a Secretaria do Interior, Justiça e Instrução, representado pela pessoa de Francisco Prisco de Souza Paraizo, e o pintor Antônio Diogo da Silva Parreiras. O governador do estado na época era Vital Soares.

Uma das cláusulas do contrato definia que seria representado o evento do dia 25 de Junho, e o artista deveria se basear não só nos documentos dos arquivos e bibliotecas da Bahia, de Cachoeira e do Rio de Janeiro, mas também (e principalmente) na detalhada descripção feita pelo Dr. Bernardino José de Souza apresentada no ano de 1922 em Cachoeira.

O Primeiro Passo para a Independência da Bahia, 1931 - Antônio Parreiras. Palácio Rio Branco, Salvador, BA.

Ainda que partindo de uma fonte bibliográfica detalhada, as dificuldades para o artista eram imensas. Primeiro porque o governo encomendante exigia certos requintes de realismo: “…o scenario será pintado no proprio local e reconstituido com a maxima fidelidade e as personagens que se distinguiram em tão glorioso momento serão retratadas quando houver retrato ou documentos que sirvam como orientação para este fim.”

Casa de Câmara e Cadeia - Cachoeira

Casa de Câmara e Cadeia - Cachoeira Casa de Câmara e Cadeia - Cachoeira Casa de Câmara e Cadeia - Cachoeira

Outra dificuldade, comum ao gênero da pintura de história, é condensar em um único momento, os episódios de um dia inteiro. Ou seja, era necessário escolher o instante que melhor representasse o episódio. Mas a imagem é construída a posteriori, não é obviamente como uma fotografia. Ou seja, até o realismo é construído, e a imagem parecerá mais verdadeira quanto mais coincidir com a narrativa oficial conhecida por todos. A pintura será mais realista quanto mais  dessa narrativa nós reconhecermos nela, ainda que para isso o artista subverta a cronologia da história e condense no mesmo instante momentos sabidamente diferentes.

É uma espécie de licensa poética, a mesma licença que permite por exemplo que a arquitetura ou o plano urbanístico seja manipulada para acolher melhor a cena. Embora o largo da Casa de Câmara e Cadeia seja perfeitamente reconhecível na pintura, o artista opera um verdadeiro milagre ao distanciar um quarteirão inteiro (o do prédio do IPHAN – edifício cor de rosa com portas verdes) e aproximar o Paraguaçu, de tal modo que a escuna portuguesa pudesse dar o ar da graça (ver post anterior). É o ponto de vista mais impossível de todos, mas perder o Paraguaçu é um preço alto demais para exageros realistas.

Largo - vista a partir da Casa de Câmara - Foto de Elias Mascarenhas

Largo - vista a partir da Casa de Câmara - Foto de Elias Mascarenhas

De mais a mais, em matéria de pintura histórica e auto-promoção (essa é outra história…) Parreiras foi aluno de Pedro Américo, que já dizia:

trecho de O Brado do Ipiranga - Cláudia Valladão e Cecília Helena Oliveira (org) Clique para ver o livro no Google Books

Tudo indica que logo após conseguir a encomenda do quadro (grande o suficiente para que as imagens em primeiro plano tivessem tamanho natural), partiu para o município de Cachoeira a fim de estudar o cenário do episódio. Hospedou-se no Convento do Carmo, onde fez amizade com Frei Margallo (o encontro é narrado em sua autobiografia). No palco da ação conseguiu outra encomenda. Deveria reproduzir o quadro que pintaria para o Governo da Bahia em ponto pequeno (1/3 do tamanho da tela original), e para isso receberia 5 contos de réis, a serem pagos em duas parcelas: a primeira na entrega, e a segunda um ano após. A encomenda foi feita pelo intendente, cujo nome está quase totalmente ilegível no contrato (algo como Candido Lemegundes Bas…to – por favor, se alguém puder oferecer o nome correto).

Entre as duas versões, existem algumas pequenas diferenças, o que nos autoriza pensar que a que está exposta em Cachoeira foi pintada provavelmente em primeiro lugar, como um estudo muitíssimo bem feito. Alguns detalhes sutis foram modificados entre uma e outra, como por exemplo as feições dos personagens dos grupos menos importantes, que são melhor observados na representação que está na Casa de Câmara e Cadeia de Cachoeira. Na tela do Palácio Rio Branco o desenho bem feito cede lugar a uma iluminação diáfana, em que o desenho cede lugar à atmosfera de reflexos brilhantes e variações sutis de cores. Também foram feitas correções no aspecto de alguns personagens, como é o caso do padre Vilaboim, atrás do grupo do vaqueiro, que é representado como um velho no quadro de Salvador, e no de Cachoeira ele é jovem. Provavelmente esta foi uma alteração feita a pedido do governo da Bahia.

Muitos outros detalhes podem ser encontrados no exercício de diferenciar o primeiro do segundo quadro. Ambos acabam sendo obras únicas, e a pintura de Cachoeira ajuda a entender o processo de criação do artista. Sei que no Museu Antônio Parreiras existem estudos em carvão sobre o tema, mas não foi possível vê-los em minha visita. Mas cheguei a ver um esboço no Palácio Rio Branco que se aproxima mais do de Cachoeira do que do de Salvador, confirmando a hipótese.

A composição evidentemente é a mesma. O largo da Casa de Câmara e Cadeia se abre para receber tropas e populares que exultam com a Independência. Os homens estão sólidos com as pernas abertas em triângulos (como os Horácios de David, porém sem vigor). Essa posição se repete na maior parte dos personagens, da mesma forma como as mãos erguidas (algumas com espadas, outras com chapéus) continuam a linha das pernas, e as garruchas fazem linhas paralelas.

O Primeiro Passo para a Independência na Bahia

O Primeiro Passo para a Independência na Bahia - versão de Cachoeira

Aliás, é um eco sem fim essa composição, cuja monotonia é quebrada apenas por um estropiado que vem do fundo para a frente do quadro e pelo Tambor Soledade, que morre no primeiro plano. Diferença marcante entre os dois quadros é a expressão do rapaz que acompanha Soledade: saudável e pouco expressivo no quadro de Cachoeira, com olheiras profundas e maior dignidade no quadro do Palácio Rio Branco (vejam as ombreiras, muito mais elegantes), como se toda a originalidade estivesse (e está mesmo) concentrado nessas duas figuras. O resto é um júbilo meio burocrático.

Parreiras já era um senhor de 68 anos quando recebeu a encomenda do Primeiro Passo para a Independência na Bahia, e dedicou os últimos anos de sua vida à produção de pinturas de história. Muito conhecido como paisagista, Parreiras pertenceu à última geração para a qual a pintura de história ainda significava alguma coisa. E foi encontrar encomendas justamente nos últimos lugares aonde a pintura de história ainda fazia sentido, ou seja, nas províncias.

O grande momento do gênero de pintura de história aconteceu no Brasil entre a Primeira Missa no Brasil por Vítor Meireles em 1863 e o Grito do Ipiranga de Pedro Américo em 1888, sendo estes dois os grandes e inigualáveis pintores de história  do reinado de Pedro II. Parreiras, nascido em 1860, cresceu sob a influência de ambos, e possivelmente se reconhecia como artista muito mais ao lado deles do que em relação a seus contemporâneos. Há na obra de Parreiras um desejo de grandeza que só encontra correspondência na arte das gerações anteriores. Foi o último dos enormes. A arte moderna já não era dada a tantas eloquências.


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#4 25 de Junho em Cachoeira (parte I)

A Revolução Constitucionalista gerou tensão nas relações entre lusos e brasileiros. O congresso sediado em Portugal insistia no erro político de se impor ao Brasil como a uma colônia. No dia 2 de Junho de 1822 Pedro de Alcântara tomou conselho com três procuradores de província (2 do Rio e o de Montevideu), e obteve a seguinte resposta, conforme Varnhagen:

No dia 19 de junho Pedro I foi aclamado Imperador do Reino Unido no Rio de Janeiro.

Os deputados baianos em Lisboa também tinham intenção de ouvir a Junta Provisória da Bahia sobre a posição política a ser tomada na corte, o que foi feita por carta datada de 22 de março de 1822. As questões eram as seguintes:

Como a Cidade da Bahia encontrava-se esvaziada pelas violentas hostilizações mútuas entre brasileiros e portugueses (veja o artigo da wikipedia para maiores informações), a consulta seguiu para as cidades do Recôncavo. Chegou primeiro a Sto. Amaro no dia 14 de junho, e no dia 25 foi a vez da câmara de Cachoeira respondê-las. É a heróica resposta a essas questões que se comemora nesta data em Cachoeira.

No dia 24 uma tropa com cem homens arregimentados no Iguape pernoitou no povoado de Belém. No dia seguinte pela manhã entraram em Cachoeira e passaram pelo centro da vila no caminho para a Casa de Câmara e Cadeia. A marcha dos soldados criou rebuliço. Uma escuna comandada por lusitanos havia estacionado no Paraguaçu; os acontecimentos de fevereiro em Salvador ecoavam no Recôncavo, sobretudo a afronta do assassinato de Joana Angélica no Convento da Lapa. Tensão, eletricidade e adrenalina. Os sentidos se aguçavam, os velhos eram vivos de novo, e queriam lutar.

Da janela da Casa de Câmara Manoel Teixeira de Freitas pergunta ao povo reunido no largo “se erão contentes que se acclamasse S. A. R. o Sr. D. Pedro de Alcantara, por Regente e Perpetuo defensor e protector do Reino do Brasil, assim no fórma que foi acclamado na cidade do Rio de Janeiro.”

Sim!!!

Eis que o procurador atira um estandarte janela afora, e a energia acumulada explode em vivas, como se nada mais importasse.

Às 15 horas os patriotas foram para a igreja matriz ouvir o Te Deum em homenagem a essa tomada de posição da elite açucareira. Após a solenidade, no fim do dia, o português Manoel Machado Nunes optou por uns tiros de fuzil como forma de escrever seu inexpressivo nome na história. Um desses tiros acertou a barretina do Major Joaquim José de Bacellar e Castro (mas de acordo com os registros que encontrei, nenhum deles acertou o peito de Tambor Soledade… mas isso é o tema da parte II desse post).

Já Agrário de Souza Menezes preferiu entrar para a história com os versos acima

Estimulados pelos tiros de Manoel Machado Nunes, e provavelmente sentindo-se excluídos de toda aquela felicidade, os militares portugueses ancorados no Paraguaçu resolveram lidar com o sentimento de rejeição se vingando do povo em terra. Foi quando começaram a atirar, mas estando a maré baixa, as três balas da metranca lusa só atingiram o cais do porto. À noite, no entanto, voltaram à carga, mirando nas janelas e portas dos brasileiros. Chegaram mesmo a desembarcar para impor ordem.

No dia seguinte voltaram a atirar. Incomodados, os cachoeiranos organizaram a famosa Junta Conciliatória e de Defesa e solicitaram que os visitantes inconvenientes interrompessem as hostilidades. Não foram atendidos. No dia 28 a escuna foi abordada por brasileiros que partiram do lado direito do Paraguaçu (hoje S. Félix – conforme Cacau Nascimento no blog Cachoeira OnLine). Vitória!

Enfim, a história do dia 25 de Junho é essa, embora os pesquisadores que se aprofundaram mais nos acontecimentos possam fazer correções ou acrescentar dados. Nessa história toda da Independência da Bahia eu sempre me admiro com o signo dos caboclos, que eu pretendo abordar na parte III desse post. Vou escrevendo aos poucos… hoje não tem vídeo. O das Caretas do Mingau continua aí para quem ainda não viu.

Fontes:

História Geral do Brasil, de Varnhagen (tomo segundo);

Independência da Bahia, de Braz Amaral;

Memórias Históricas Brasileiras, de Damasceno Vieira (tomo segundo).

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