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#8 Ofício de Ogum

A profissão de Mestre Ferreiro vai desaparecer em futuro próximo. Algumas das funções que ela cumpria na sociedade deixaram de existir, outras foram absorvidas pelos serralheiros. Não é o caso de se lamentar, mesmo porque não é em agonia que o ofício se extingue. O mundo muda, e os conhecimentos do ferro e do fogo tendem a sobreviver em outros contextos.

 

Aquarela de Carybé ("Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia") e texto de Reginaldo Prandi publicado em "Mitologia dos Orixás" p.95

 

No Candomblé, Ogum é quem domina a forja e a manufatura das ferramentas de ferro. Entre elas estão os instrumentos de agricultura, caça, guerra e todos

 

"Ferramenta de Ogum" aquarela de Carybé (Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia)

 

os utensílios que colaboram para o bem-estar na cidade e no campo. O mito faz referência a um tempo fora da história, quando os Orixás, antes dos humanos, aprenderam a utilizar os metais para superar desafios e satisfazer as demandas da vida em sociedade. O ferro ajudava a suprir necessidades de alimentação e moradia, e também culturais, uma vez que os objetos acabam materializando o jogo de identidade e diversidade nos grupos sociais.

A durabilidade do ferro chega a ser quase subversiva. Quem andar em Cachoeira e der atenção aos gradis que muitas casas ainda exibem, vai observar padrões de desenhos diversos, cheios de significados. Eles ajudaram a construir o estilo e a identidade do município, colaborando para definir por um lado a aparência da cidade, de outro, a forma como a sociedade se organiza.  Eles falam de status social, mas também de interesses, ofícios, saberes, posições políticas, grupos aos quais os habitantes se vinculam… um símbolo recorrente é a lira, que compõe a decoração de várias residências e depõe sobre a inserção de um grupo de indivíduos na sociedade.

 

Trecho de Pierre Verger sobre Ogun - Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia

 

 

"Ferro de Ogum" aquarela de Caybé (Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia)

 

Por ser durável, o ferro acaba por servir de testemunha e suporte de uma memória social que incomoda sobretudo aos proprietários dos edifícios. Como a cidade é tombada, eles testam a própria paciência esperando a cumplicidade do tempo para arruinar as construções dos séculos passados. É preciso dizer que o incômodo não procede de uma leitura inteligente da arquitetura e do urbanismo, mas de pura especulação imobiliária. Em geral os cachoeiranos têm bastante orgulhos de sua cidade. Não é o caso, portanto, de jogos de poder, controle da memória, e nada disso. Nesse caso a violência em relação ao patrimônio é bem mais truculenta e teimosa.

Enfim, o século XXI parece estar se desvencilhando da matéria tanto quanto é possível. Os objetos vêm prontos de fábrica, e não é difícil pensar que  a matéria-prima pode se transformar em produto sem a presença de um ser humano sequer. Os objetos de desejo muitas vezes são suportes que vão intermediar a experiência da música, da imagem, do vídeo ou do texto… Para essa sociedade tão próxima dos ambientes virtuais, os objetos feitos artesanalmente acabam se transformando em algo de uma ousadia extravagante, luxuosa até.

O apelo aos sentidos, a textura, a ferrugem, as marcas, os vestígios que denunciam o processo de produção ao invés de apagá-lo como fazem as indústrias, essa realidade toda permite a experimentação de algo nem um pouco vulgar em nosso tempo. A frequentação pelo tato e pelo olfato, para além do audiovisual que predomina em nosso tempo. Frequentação não de um objeto de plástico, alumínio ou imitação de madeira, materiais quase onipresentes na vida contemporânea e que repercutem o jogo industrial da vida útil do produto: entre o novo e o lixo o intervalo de tempo é cada vez mais curto. Mas a frequentação de objetos imediatos cheios de significados que somente a experiência sensível pode produzir.

No vídeo abaixo acompanhamos Guino, mestre ferreiro que vive em Cachoeira, no Recôncavo da Bahia, falando sobre sua profissão e produzindo

 

"Ferramenta de Yemanjá" aquarela de Carybé (Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia)

 

uma ferramenta de Yemanjá, conforme aquarela de Carybé publicada no livro “Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia“. Aqui ele trabalha como um bricolleur, reaproveitando materiais diversos e não somente o ferro.

Disponibilizar a informação em vídeo, ou seja, a partir do intermédio da câmera, dá o que pensar… sobretudo com a defesa da experiência tátil exposta acima. Mas é o que se tem, e de modo algum pretendo negar a validade da experiência da vida contemporânea, e nem deixar de participar dela. Não há o que se lamentar, isso já foi dito acima. A lente da filmadora vê coisas que o olho não vê, e as imagens em zoom parecem ser mais reais do que a realidade ela mesma. Traduzir o espaço real para o virtual é o meio disponível para investigar e compartilhar a experiência, e para reconstruí-la, ordená-la e servi-la como se deseja.

 

"Espada de Ogum" aquarela de Carybé ("Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia")

 

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#3 Caretas do Mingau

Caretas do Mingau é uma das celebrações mais interessantes da Independência da Bahia. Na madrugada do dia 1º para o dia 2 de Julho as mulheres do município de Saubara, vestidas de branco e com os rostos cobertos, se reúnem para percorrer as ruas da cidade distribuindo mingau, bebendo licores e fazendo a maior algazarra do mundo. Dona Maria da Cruz Santos, de 84 anos, lidera a brincadeira que relembra o papel importante das mulheres do então distrito da Freguesia de São Domingos de Saubara.

 

Para Judite Barros, principal pesquisadora da História e da Cultura de Saubara, esta é a manifestação folclórica mais antiga do município. A história é a seguinte: depois dos acontecimentos do dia 25 de Junho em Cachoeira (essa história será contada no post #4, daqui a 15 dias), a guerra pela Independência na Bahia foi inevitável. Salvador encontrava-se ocupada por portugueses, de modo que a resistência baiana aconteceu sobretudo no interior, e principalmente no território do Recôncavo da Bahia de Todos os Santos: Itaparica, Madre de Deus, Sto. Amaro, S. Francisco do Conde, Cachoeira, Maragojipe, Nazaré, Salinas da Margarida e algumas outras vilas sediaram combates e abrigaram os exércitos brasileiros arregimentados no Recôncavo e no Sertão.

Capa do livro de Judite Barros sobre Saubara

Desde 1696 o território de Saubara era distrito da Freguesia de Santo Amaro. Situado logo na entrada direita do Rio Paraguaçu, é possível ver pelo mapa retirado da wikimapia que o terreno era estratégico para a resistência, pois era passagem necessária das tropas portuguesas no caminho para o interior. A defesa desta região foi comandada pelo Padre Manuel José Gonçalves Pereira, que convenceu os pacatos homens da terra a se armar contra os lusos.

O povoado acabou se esvaziando, uma vez que a maior parte dos homens se deslocou para o mato, como nas guerrilhas. A cidade foi ocupada por alguns portugueses inimigos. Foi aí que as mulheres inventaram a estratégia do Mingau para alimentar seus maridos, filhos e pais: fingindo-se de assombrações, saíam em grupo pelas madrugadas fazendo muito barulho e apavorando os portugueses. No caminho deixavam alimentos em locais previamente combinados, retornando à vila antes do amanhecer.

Essa é a lenda das Caretas do Mingau. Se ela é verídica, ou mesmo provável, é outra questão. O fato é que deu origem a uma manifestação cultural importante, e que reivindica o reconhecimento da participação feminina nas lutas pela independência. Aliás, o símbolo da independência em Saubara é feminino, é a Cabocla, saudada por todos no final da festa.

Hoje quem organiza as Caretas é Dona Maria da Cruz, sempre acompanhada por sua filha Justina. Antes dela era Dona Iaiá, Raimunda Alta do Rosário, quem fazia a festa acontecer. Parece que não é possível precisar a data em que o evento aconteceu pela primeira vez… como descobrir uma coisa dessas? Só mesmo se alguém encontrasse algum documento, relato de viajante, ou coisa parecida.

Saubara é uma cidade riquíssima em termos de patrimônio cultural, um espaço privilegiado onde as histórias são  fixadas por meio de brincadeiras. O que chama a atenção não é exatamente a combinação de música, dança e drama para compor as narrativas de fatos diversos, mas a quantidade de manifestações e o virtuosismo das comunidades locais no emprego dessa linguagem. Chega a ser um abuso a sofisticação com que os signos são trabalhados nos ranchos e ternos.

Chegança, Barquinha, Zé do Vale, Nego Fugido, Caretas (outras caretas diferentes das do Mingau), Lavagens, Ternos, Ranchos, Pastoris e Bailes variados, e muitas outras brincadeiras que eu não conheço… isso além de uma vertente poderosa de Samba Chula, Casas de Candomblé importantes e o ofício das Rendeiras (renda de bilro) bem organizado pela Associação das Rendeiras.

Não tenho dúvidas de que a maior contribuição que Saubara pode dar à sociedade global é a vitalidade de sua cultura e o gosto pela brincadeira. Dia 2 de Julho está chegando, e D. Maria da Cruz vai estar lá, mais uma vez, saudando a Cabocla.

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