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#2 Antônio Cardoso, artista de Muritiba

Enguia

Conheci Antônio Cardoso na Conferência Municipal de Cultura de Muritiba, no ano passado. Ele estava deslocado em seu eixo temático. Primeiro porque não conseguia entrar na discussão, depois porque suas necessidades como artista já estavam suficientemente claras, e não encontravam eco no que se falava. Aconselhei que se reunisse a um artesão (também deslocado pelas mesmas razões) e que juntos criassem um documento em separado. Esse documento demandava do poder público apoio para produzir e lugar para expor.

Mulher

É claro que Antônio gostaria de viver de sua arte, e bem poderia. Mas cadê espaço? Criar, para ele, é necessidade urgente. Faz desenhos porque é o material que tem condições de comprar, mas seu sonho é a pintura e a tela. Enquanto isso, trabalha com hidrocor e lápis. Da última vez que o encontrei ele experimentava as cores de um barro vermelho encontrado próximo a sua residência (esses trabalhos com barro são formidáveis – Antônio também cria peças em barro não cozido).

Estudos para desenho de homem

Homem

Nessa urgência toda Antônio acabou definindo linguagem própria. Estudou alguma coisa de perspectiva pelo Instituto Universal Brasileiro, onde se formou como Mestre de Obras depois de ser excluído do ensino público (veja no vídeo). Seus pontos de fuga miram a frigideira e o gato. Na base equerda o edifício se projeta para o fundo, no topo direito quase despenca no primeiro plano. O espaço de Antônio cria um universo paralelo que subverte e supera a ordem do real, e acentua o caráter expressivo de sua linguagem.

Arquitetura

Não gosto e nem acredito no uso do termo naïf , que distingue a categoria de artistas sem estudo formal da categoria dos artistas artistas. A impressão que se tem é que as poéticas ingênuas partem de uma expressividade absoluta, que passa ao largo da consciência da linguagem. Creio que isso é falso, porque qualquer um que enfrente problemas de execução material, em alguma medida pensa questões de linguagem. Não é possível classificar o trabalho de Antônio antes de frequentá-lo, é o que eu quero dizer. E se propusermos uma aproximação honesta, livre de preconceitos, com sua obra, podemos ser levados a reconhecer nele um artista talentoso.

Pássaro

Vegetal

Quando muito pouco, deve-se reconhecer em seus trabalhos ao menos o valor da originalidade. Antônio desenha flores, animais e figuras humanas que são únicas, porque sua imaginação é singular. Os vegetais parecem ser a desculpa para a combinação de cores. Do caule verde brotam botões vermelhos e deles surge o ritmo. Sua enguia é bem estruturada, nobre com o peito estufado e olhar congelado no tempo. Não há caráter narrativo em suas peças, e as figuras parecem simplesmente existir em sua imaginação. A mulher que sofre, é uma mulher que sofre, e Antônio cria a imagem do sofrimento sem que seja necessário ligá-lo a um motivo. A enguia é nobre e a flor é elegante. O apelo não está na história, mas no exercício difícil que é dar  forma à qualidade e ao sentimento.

O mérito de Antônio como artista está em seu poder de expressão. Mesmo quando enfrenta temas narrativos, como a destruição do mundo, o que ressalta é a qualidade da desordem. E o espaço parece estar para ele sempre apartado do tempo. Confesso que tenho dificuldades de perceber o tempo em seus desenhos, mesmo quando o movimento, que deveria pressupô-lo, é evidente…

Depois da conferência de cultura, Antônio continua sem espaço para expor e sem apoio para produzir. Sua arte não é suficientemente reconhecida em sua cidade, o que é lastimável. Um trabalho que poderia ser motivo de orgulho, não consegue sequer a possibilidade de ser mostrado. A tristeza maior disso tudo é que um mínimo de reconhecimento poderia fazer a obra de Antônio crescer muito…  ele sabe o que faz, mas ninguém acredita nele. Paciência.

Homem de olhos amarelos e verdes

Destruição do Mundo

Mulher II

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