#5 25 de Junho em Cachoeira (parte II)

Em 1826 Pedro I aprovou a criação de um monumento que homenageasse os feitos heróicos do 25 de Junho, desde que fosse erigido às custas da própria vila de Cachoeira. Não saberia dizer se a partir da autorização imperial houve algum movimento no sentido de concretizar a obra, mas a informação indica algo interessante:

1º Controle do Império sobre os símbolos nacionais, uma vez que sua construção dependia da aprovação do Regente;

2º Pressa dos Cachoeiranos em definir e cristalizar o discurso oficial da memória do 25 de Junho tão logo se iniciasse o período de estabilidade pós-independência;

3º Conformidade de projetos políticos, ou antes, inserção das perspectivas da elite açucareira na base de sustentação da monarquia.

Se fosse concedido a cada província o direito de construir a própria memória o resultado provável seria a concorrência entre signos de identidade local e signos nacionais (também em construção), um risco para a unidade territorial brasileira. Os símbolos eram regulados com parcimônia, e o fato de Cachoeira ter conseguido autorização para fortalecer a imagem de seu heroísmo através da criação de um monumento não é coisa vulgar. Por um lado indica a força da pressão dos grupos de poder político e econômico da vila (e do Recôncavo, por que não?) junto ao Império; e por outro revela a intenção desses grupos de legitimar o próprio poder vinculando a si mesmos um papel proeminente no processo de independência que definiria qualquer cenário político a partir de então, fosse ele qual fosse.

Por algum motivo esse monumento não foi erigido, não vou especular agora (se alguém puder contribuir com alguma referência sobre isso ela será bem acolhida nos comentários). Isso não quer dizer que a memória oficial não tenha sido construída, ela o foi, mas por outros meios: narrativa histórica, procissão com os caboclos, discursos inflamados no 25 de Junho, etc. Faltava porém uma imagem que desse forma e concretude ao acontecimento.

Em 1923, quase um século depois, a Câmara dos Deputados do Estado da Bahia já havia aprovado o gasto de 50 contos de réis com um monumento que celebrasse o 25 de Junho em Cachoeira. Alberto Rabello, autor do projeto, aproveitou a comemoração do centenário da independência para cobrar o resgate dessa dívida de honra, que vae já tomando lastimaveis proporções de ingratidão e injustiça.” (Diário Official do Centenario, p.172) Nessa mesma ocasião faz referência a um contrato firmado na Secretaria do Interior com “distincto esculptor italiano” para a execução da obra.

Não dispomos de mais nenhuma informação sobre esta encomenda ou sobre o artista italiano que a executaria. Carlos Nicoli, talvez? O mesmo criador do Caboclo da Praça 2 de Julho? Seria o caso de buscar essa informação nos diários oficiais anteriores a maio de 1923 ou em periódicos. Se alguém se interessar pela pesquisa, por favor mande notícias!

O fato é que o monumento mais uma vez não foi construído. Em 1928 Antônio Parreiras, laureado pintor fluminense, foi contratado pelo governo do estado para pintar uma tela histórica de tema o primeiro passo para independência na Bahia. O valor:  cincoenta contos de réis (50:000$000). Tive acesso ao texto do contrato no Museu Antônio Parreiras, em Niterói, em 2007.

Ele foi firmado no dia 24 de outubro de 1928 entre a Secretaria do Interior, Justiça e Instrução, representado pela pessoa de Francisco Prisco de Souza Paraizo, e o pintor Antônio Diogo da Silva Parreiras. O governador do estado na época era Vital Soares.

Uma das cláusulas do contrato definia que seria representado o evento do dia 25 de Junho, e o artista deveria se basear não só nos documentos dos arquivos e bibliotecas da Bahia, de Cachoeira e do Rio de Janeiro, mas também (e principalmente) na detalhada descripção feita pelo Dr. Bernardino José de Souza apresentada no ano de 1922 em Cachoeira.

O Primeiro Passo para a Independência da Bahia, 1931 - Antônio Parreiras. Palácio Rio Branco, Salvador, BA.

Ainda que partindo de uma fonte bibliográfica detalhada, as dificuldades para o artista eram imensas. Primeiro porque o governo encomendante exigia certos requintes de realismo: “…o scenario será pintado no proprio local e reconstituido com a maxima fidelidade e as personagens que se distinguiram em tão glorioso momento serão retratadas quando houver retrato ou documentos que sirvam como orientação para este fim.”

Casa de Câmara e Cadeia - Cachoeira

Casa de Câmara e Cadeia - Cachoeira Casa de Câmara e Cadeia - Cachoeira Casa de Câmara e Cadeia - Cachoeira

Outra dificuldade, comum ao gênero da pintura de história, é condensar em um único momento, os episódios de um dia inteiro. Ou seja, era necessário escolher o instante que melhor representasse o episódio. Mas a imagem é construída a posteriori, não é obviamente como uma fotografia. Ou seja, até o realismo é construído, e a imagem parecerá mais verdadeira quanto mais coincidir com a narrativa oficial conhecida por todos. A pintura será mais realista quanto mais  dessa narrativa nós reconhecermos nela, ainda que para isso o artista subverta a cronologia da história e condense no mesmo instante momentos sabidamente diferentes.

É uma espécie de licensa poética, a mesma licença que permite por exemplo que a arquitetura ou o plano urbanístico seja manipulada para acolher melhor a cena. Embora o largo da Casa de Câmara e Cadeia seja perfeitamente reconhecível na pintura, o artista opera um verdadeiro milagre ao distanciar um quarteirão inteiro (o do prédio do IPHAN – edifício cor de rosa com portas verdes) e aproximar o Paraguaçu, de tal modo que a escuna portuguesa pudesse dar o ar da graça (ver post anterior). É o ponto de vista mais impossível de todos, mas perder o Paraguaçu é um preço alto demais para exageros realistas.

Largo - vista a partir da Casa de Câmara - Foto de Elias Mascarenhas

Largo - vista a partir da Casa de Câmara - Foto de Elias Mascarenhas

De mais a mais, em matéria de pintura histórica e auto-promoção (essa é outra história…) Parreiras foi aluno de Pedro Américo, que já dizia:

trecho de O Brado do Ipiranga - Cláudia Valladão e Cecília Helena Oliveira (org) Clique para ver o livro no Google Books

Tudo indica que logo após conseguir a encomenda do quadro (grande o suficiente para que as imagens em primeiro plano tivessem tamanho natural), partiu para o município de Cachoeira a fim de estudar o cenário do episódio. Hospedou-se no Convento do Carmo, onde fez amizade com Frei Margallo (o encontro é narrado em sua autobiografia). No palco da ação conseguiu outra encomenda. Deveria reproduzir o quadro que pintaria para o Governo da Bahia em ponto pequeno (1/3 do tamanho da tela original), e para isso receberia 5 contos de réis, a serem pagos em duas parcelas: a primeira na entrega, e a segunda um ano após. A encomenda foi feita pelo intendente, cujo nome está quase totalmente ilegível no contrato (algo como Candido Lemegundes Bas…to – por favor, se alguém puder oferecer o nome correto).

Entre as duas versões, existem algumas pequenas diferenças, o que nos autoriza pensar que a que está exposta em Cachoeira foi pintada provavelmente em primeiro lugar, como um estudo muitíssimo bem feito. Alguns detalhes sutis foram modificados entre uma e outra, como por exemplo as feições dos personagens dos grupos menos importantes, que são melhor observados na representação que está na Casa de Câmara e Cadeia de Cachoeira. Na tela do Palácio Rio Branco o desenho bem feito cede lugar a uma iluminação diáfana, em que o desenho cede lugar à atmosfera de reflexos brilhantes e variações sutis de cores. Também foram feitas correções no aspecto de alguns personagens, como é o caso do padre Vilaboim, atrás do grupo do vaqueiro, que é representado como um velho no quadro de Salvador, e no de Cachoeira ele é jovem. Provavelmente esta foi uma alteração feita a pedido do governo da Bahia.

Muitos outros detalhes podem ser encontrados no exercício de diferenciar o primeiro do segundo quadro. Ambos acabam sendo obras únicas, e a pintura de Cachoeira ajuda a entender o processo de criação do artista. Sei que no Museu Antônio Parreiras existem estudos em carvão sobre o tema, mas não foi possível vê-los em minha visita. Mas cheguei a ver um esboço no Palácio Rio Branco que se aproxima mais do de Cachoeira do que do de Salvador, confirmando a hipótese.

A composição evidentemente é a mesma. O largo da Casa de Câmara e Cadeia se abre para receber tropas e populares que exultam com a Independência. Os homens estão sólidos com as pernas abertas em triângulos (como os Horácios de David, porém sem vigor). Essa posição se repete na maior parte dos personagens, da mesma forma como as mãos erguidas (algumas com espadas, outras com chapéus) continuam a linha das pernas, e as garruchas fazem linhas paralelas.

O Primeiro Passo para a Independência na Bahia

O Primeiro Passo para a Independência na Bahia - versão de Cachoeira

Aliás, é um eco sem fim essa composição, cuja monotonia é quebrada apenas por um estropiado que vem do fundo para a frente do quadro e pelo Tambor Soledade, que morre no primeiro plano. Diferença marcante entre os dois quadros é a expressão do rapaz que acompanha Soledade: saudável e pouco expressivo no quadro de Cachoeira, com olheiras profundas e maior dignidade no quadro do Palácio Rio Branco (vejam as ombreiras, muito mais elegantes), como se toda a originalidade estivesse (e está mesmo) concentrado nessas duas figuras. O resto é um júbilo meio burocrático.

Parreiras já era um senhor de 68 anos quando recebeu a encomenda do Primeiro Passo para a Independência na Bahia, e dedicou os últimos anos de sua vida à produção de pinturas de história. Muito conhecido como paisagista, Parreiras pertenceu à última geração para a qual a pintura de história ainda significava alguma coisa. E foi encontrar encomendas justamente nos últimos lugares aonde a pintura de história ainda fazia sentido, ou seja, nas províncias.

O grande momento do gênero de pintura de história aconteceu no Brasil entre a Primeira Missa no Brasil por Vítor Meireles em 1863 e o Grito do Ipiranga de Pedro Américo em 1888, sendo estes dois os grandes e inigualáveis pintores de história  do reinado de Pedro II. Parreiras, nascido em 1860, cresceu sob a influência de ambos, e possivelmente se reconhecia como artista muito mais ao lado deles do que em relação a seus contemporâneos. Há na obra de Parreiras um desejo de grandeza que só encontra correspondência na arte das gerações anteriores. Foi o último dos enormes. A arte moderna já não era dada a tantas eloquências.


5 Comentários

Arquivado em Sobre o Recôncavo

5 Respostas para “#5 25 de Junho em Cachoeira (parte II)

  1. Raimundo Oliveira

    Primeiro quero parabenizar pelo seu excelente trabalho de pesquisa,realmente muito bom,além do que, numa linguagem acessível.Gostei mesmo!Quanto ao Tambor Soledade,sinceramente acho que ele de fato existiu;a oralidade não se dá no vácuo.Em relação ao intendente ,acho que foi o Cunegundes barreto,1920 por aí.Cacau pode informar melhor.

  2. Mas a Casa de Camara e Cadeia não é alinhada a Igreja.
    Hugo,
    não fui a Brasilia por causa da mudança de casa, da morte dos gatos,porque fiquei para prova final com a Rita Doria,e a Fabiana Comerlatto.Precisava estudar para não repetir disciplinas.Este Semestre que passou foi bem ruinzinho… cheio de feriados e chateações…
    Espero que nesse novo, as coisas tenham um melhor desempenho, por todos os lados. Adorei seu texto, como sempre, uma bela aula …..

  3. André Koehne

    Quero parabenizar ao Hugo pelo estudo aqui apresentado. “Apropriei-me” dele para fundamentar (e ilustrar) um verbete sobre a tela de Parreiras na Wikipédia – fazendo aqui a “mão dupla” – já que o esboço por mim lá iniciado sobre a “nossa” Independência também é aqui lincado (apesar de a autoria lá ser limitada aos nicknames acessíveis apenas pelo histórico dos verbetes).

    Ilustrando nosso passado, esse artigo se faz primoroso e, apesar da limitação imposta aos “blogues”, não poderia me furtar de aqui haurir informes e estímulo para concluir, na Wikipédia, o ensaio iniciado há já algum tempo…

    Portanto, minha sincera homenagem e gratidão a você.

    • hguarilha

      Legal, André,

      parabéns a nós!

      obrigado por lincar o reconcavo.wordpress na wikipedia.

      Vou aproveitar para adicionar o seu blog Dispensares aqui ao lado,
      vamos manter contato!
      abraço
      Hugo

      • André Koehne

        Vamos sim! Tens, espero, meu email por aqui; tenho cuidado de levar um pouco da história baiana à Wikipédia – para além de tentar um pouco o resgate da história sertaneja… tarefa, muitas vezes, inglória e não compreendida. Enfim, meu blogue anda meio com teias de aranha, mas por outro lado espero poder concluir ao menos o esboço de artigo sobre a Independência… E trazer mais ligações para este vosso trabalho aqui – que não existia quando iniciei aquele; Abraços fraternos, desde Caetité.

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